O guia definitivo para o colesterol

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

Assim é fácil

Com todo esse papo de combater, lutar, brigar e obrigar o colesterol a se submeter, você deve imaginar que ele tem uma armadura preta e a voz do Darth Vader. A indústria farmacêutica criou, obedientemente, um arsenal para nossa suposta defesa, e a comunidade médica tem sido uma facção colaborativa - provendo a retórica que nos incita a pegar em armas. Se ao menos pudéssemos nos livrar dos Big Macs. E dos chocolates, balas e... você entende do que estou falando.





Mas o malvado insidioso, aquele vilão ameaçador não está atrás do leme da Estrela da Morte. Acontece que há um inimigo por dentro sim, e ele não é o colesterol. Antes de você cair de joelhos, rasgar a camisa e ranger os dentes, você pode querer considerar algumas notícias que não se ouve com frequência:  o composto em questão é absolutamente essencial para o funcionamento físico, psicológico e cognitivo.

Sim, a mensagem esses dias parece ser que nenhum número é baixo de mais quando diz respeito ao cloesterol (exceto o HDL, mas vamos chegar lá daqui a pouco). Eu gostaria de oferecer uma olhada mais profunda no assunto, simples o suficiente mas mais complexa e informativa do que o que você vai ver nos comerciais de TV que te mandam conversar com o seu médico e blá, blá, blá. Considere esse como um dos guias que estamos felizes em oferecer à nossa comunidade gregária e sempre pensativa.

Com licença, você já conhece o colesterol ?



Colesterol é um lipídio ceroso e encantador, que enfeita a membrana de cada uma das nossas células e o nosso plasma sanguíneo. Suas funções, que são muitas, incluem isolar neurônios, construir e manter as membranas celulares, metabolizar as vitaminas solúveis em gordura, produzir bile, e iniciar a síntese de muitos hormônios, incluindo os sexuais. Coisas muito legais, na prática.

Dado todo o trabalho que o colesterol tem que fazer, o fígado é meticuloso em garantir que o corpo sempre tenha o suficiente, produzindo algo entre 1000 e 1400 miligramas dele por dia. Em comparação, os 300 miligramas recomendados para o colesterol dietário (olha aí o seu imposto de renda sendo gasto) é uma gota no balde. E entenda isso: nossos fígados tem mecanismos de realimentação (sem custo extra) que regulam a produção de colesterol em resposta à nossa ingesta. Quando comemos mais, ele produz menos e vice-versa. Pense nisso!

(Nota interessante: enquanto produtos animais como carne, ovos e laticínios são de longe a fonte primária de colesterol dietário, as plantas contem traços de colesterol e de substâncias parecidas com colesterol, chamadas fitosteróis, que podem ajudar a baixar o colesterol no sangue. Não que isso importe, como veremos em breve).

Então, qual é o caso com todas aquelas siglas no meu perfil de colesterol, você pergunta. Vamos dar uma olhada. Primeiramente, há as lipoproteínas de alta densidade (HDL). (Lipoproteínas são partículas esféricas de gordura com proteínas solúveis em água ao redor. Elas transportam o colesterol). HDL: todo mundo ama esse cara. Ele tem o trabalho de transferir o colesterol dos tecidos de volta para o fígado. É basicamente o fim da lina com essa rota, e o fígado então o excreta através da bile. HDL é aquele que naturalmente ajuda a nos livrar do colesterol em excesso quando o corpo não precisa mais dele - daí sua popularidade universal. Alguns colesterologistas (acabei de inventar essa palavra) até se referem a ele como "o caminhão de lixo da natureza".

A seguir, há as lipoproteínas de baixa densidade, LDL. LDL é uma proteína e um carregador de coisas, da mesma maneira. Ele tem o trabalho desgraçado de transportar o colesterol após a produção pelo fígado, para os tecidos corporais. Lembre-se, esse é um trabalho importante! Lembre-se que o colesterol tem uma lista de tarefas imensa.

Ironicamente, acontece que não é a parte "colesterol" do LDL e do HDL que são perigosa, e sim a parte lipoprotéica. Infelizmente, uma vez que a medicina achou uma maneira de diferenciar entre as quantidades de HDL e LDL em um teste de sangue barato, foi a parte do colesterol que levou a pior.

As pesquisas mais recentes sobre LDL mostram que há sub-categorias desse transportador de colesterol e que algumas são mais perigosas que as outras. Acredita-se que as partículas maiores, mais revoltadas do LDL, tenham um papel pequeno ou nenhum na doença cardíaca. Por outro lado, as particulas menores e mais densas do LDL são as que se acredita estarem mais envolvidas no processo inflamatório que dispara a cascata de aterosclerose. E imagine só, é uma dieta rica em carboidratos simples que mais prontamente promove a formação dessas pequenas partículas de LDL! Infelizmente, essa importante distinção é provavelmente algo sobre o qual o seu médico sabe muito pouco - ainda que a contagem de pequenas partículas de LDL possa ser a parte mais importante de qualquer teste de colesterol. Então um colesterol total de 230, ou mesmo 250 pode não nada ser perigoso se o seu HDL é alto e o seu número de partículas pequenas de LDL é baixo.

Antes de seguirmos adiante, vamos fazer uma menção breve aos triglicérides. Eles são essencialmente a forma que a gordura assume quando viaja pelos tecidos do corpo, através da corrente sanguínea. A relação entre triglicérides e colesterol é mais uma associação. Um nível de triglicérides alto, que é inequivocamente alimentado por uma dieta rica em carboidratos, é muito frequentemente marcador de outros problemas no corpo - particularmente resistência à insulina (e subsequente risco de diabetes) e à inflamação (com seu risco de doença cardíaca). Níveis altos de triglicérides geralmente são vistos com níveis baixos de colesterol HDL. Uma vez mais, a dieta rica em carboidratos desencadeia o caos.

A chegada do pânico do colesterol



A doença cardíaca disparou no início do século XX, e os doutores procuraram freneticamente pela causa através das décadas seguintes. Testes nos anos 50 mostraram uma associação entre morte prematura por doença cardíaca e depósitos de gordura e lesões ao longo das paredes arteriais. Como o colesterol era encontrado nesses depósitos (é claro que seria!) e porque os pesquisadores tinham previamente associado a hipercolesterolemia familiar (colesterol alto hereditário) com doença cardíaca, eles concluíram que o colesterol devia ser o culpado. Na verdade, o que acontece é que em resposta a uma situação inflamatória, o corpo usa o colesterol como um "band-aid" para temporariamente cobrir quaisquer lesões na parede arterial. Quando a inflamação é resolvida, o band-aid desaparece e o reparo entra em ação. Nenhum dano, nenhuma falta. Infelizmente, na maioria dos casos, a inflamção prossegue, a placa de colesterol recebe a ação de macrófagos e é oxidada a um ponto no qual ela consome mais e mais espaço na artéria, diminui o fluxo arterial e eventualmente pode se soltar para formar um coágulo. E todo esse tempo o colesterol estava apenas tentando ser o cara bonzinho! Culpar o colesterol por tudo é como culpar todos os band-aids espalhados pela sua casa pelo seu dedo cortado.

A morte por doença cardíaca, segundo o Centro de Controle de Doenças, diminuiu mais de 50% desde o seu pico nos anos 1950. O sucesso é atribuído a uma série de fatores, incluindo a diminuição do tabagismo e melhor diagnóstico e tratamento da hipertensão. Incluída nessa lista de fatores estava a oportunidade para a educação pública no que diz respeito às teorias e descobertas científicas relacionadas ao colesterol; entretanto, os volumes (incluindo estimativas do CDC) de gordura saturada dietária mostram que a ingesta permaneceu a mesma em geral, ou aumentou.

Mas a mensagem sobre o colesterol dietário ficou.

Indústria farmacêutica ao resgate!

As drogas antigas que "combatiam" o colesterol alto evitavam a sua absorção no trato digestivo. Os efeitos colaterais sobre o sistema digestivo eram suficientemente desagradáveis e os resultados suficientemente modestos para que essas drogas nunca ganhassem muito suporte de ambos os lados da prescrição. Entram em cena as estatinas. Estatinas inibem a produção natural de colesterol. Os efeitos colaterais não foram imediatamente percebidos ou desagradáveis, e os resultados foram bastante bons (ao menos no que diz respeito a baixar o colesterol). (Os recentemente embargados Vytorin e Zetia combinam ações de estatinas com uma substância que reduz a absorção do colesterol dietário, impedindo o seu corpo de tentar compensar pela baixa na produção natural de colesterol)

Mas e o ímpeto natural do corpo para produzir uma quantidade específica e necessária de colesterol ? O que acontece às partes do corpo que precisam do colesterol ? E o mecanismo de regulação do fígado ? O que acontece quando você mexe com a evolução ? Exatamente. Essas são os tipos de questões que são jogadas para escanteio quando você pega a onda da indústria farmacêutica.


Quais são os problemas com esse modelo ("lipídico") ?



Eis a questão de milhões de dólares

Primeiramente, vamos voltar à questão evolucionária. Como um sistema naturalmente auto-regulado, o corpo vai reagir se ele não tiver colesterol suficiente (sim, a definição de "suficiente" do próprio corpo, e não da indústria). Se não há colesterol suficiente, o alarme dispara, as luzes estroboscópicas piscam e o corpo entra em modo crise. Hormônios corticóides coordenam uma redistribuição do colesterol, uma espécie de triagem na qual o colesterol é racionado entre as muitas áreas do corpo que precisam dele. Entretanto, o corpo agora está trabalho em condições difíceis.

Não há colesterol adequado disponível para o sistema de reparo do corpo, para a absorção de serotonina, para a iniciação completa da vitamina D, a produção de hormônios e sua regulação do sangue, da inflamação, etc, etc. O que a sua lógica te diz ? Sim, nada está funcionando como deveria.

Deixe-me adicionar também que o perfil de colesterol de todo mundo é diferente, não importa o que façamos. E eu reconheço que uma percentagem muito pequena das pessoas lá fora genuinamente tem colesterol realmente alto hereditário, hipercolesterolemia familiar - uma condição que caracteriza a disfunção ou inexistência da capacidade de metabolizar colesterol, e que pode ter sérias consequências para a saúde. E falando nisso, sendo heterozigota, ela afeta no máximo 1 em 500 pessoas. O colesterol sérico nesses indivíduos está na casa dos 400mg/dl (em oposição aos 200 recomendados). Sendo homozigota, ela afeta cerca de 1 em 250.000. Você provavelmente não conhece ninguém nessa categoria porque a sua desordem quase sempre termina suas vidas em uma idade muito jovem.

Eu menciono a hipercolesterolemia familiar porque quero distingui-la da afirmação feita pelas propagandas indústria farmacêutica de que você pode ter colesterol alto porque pessoas na sua família tem, e - acredita nisso ? - que a empresa está aqui para ajudar. Sei! A família de todo mundo influencia o perfil de colesterol. É, em pequena escala, genético. Nenhuma preocupação grande aqui. Apenas porque você vem de uma família com colesterol "elevado" não quer dizer que você tem a desordem metabólica de hipercolesterolemia familiar. Você pode apostar um bocado de dinheiro na probabilidade de que o seu perfil de colesterol - bom ou ruim - tem mais a ver com comportamentos aprendidos como dieta e exercício. Colesterol "elevado" não é desordem metabólica.

Seu guarda, você pegou o cara errado!


Eu já disse antes, e repito. Pesquisa médica sólida e confiável não provou que colesterol baixo (ou que abaixá-lo) reduz o risco de morte por doença cardíaca em uma população. Sim, há sempre aquele caso isolado do cara que sai da curva, mas ele (ou ela) é uma anomalia estatística e não nega a legitimidade do modelo. Por exemplo, os japoneses de Okinawa estão entre as pessoas mais saudáveis do mundo. Sua taxa de doença cardíaca é extremamente baixa, mas eles tendem a ter níveis de colesterol "elevados".

O fato é, metade das pessoas que sofrem o primeiro ataque cardíaco tem um nível de colesterol perfeitamente "normal". O que isso te diz ? Deve haver outras peças por trás da "outra metade" e, eu argumento com solidez, por trás da primeira metade também. Colesterol é um bode expiatório.

Tudo acaba se reduzindo à inflamação. Inflamação é o fator número 1 em doença cardíaca. Isso é um fato aceito atualmente, mas ainda recebe pouca atenção e nenhum tratamento ou prevenção real. Pense sobre isso: você tem seus níveis de colesterol checados a cada 5 anos ou mais se o seu perfil é "problemático". Quando é que você tem os seus marcadores de inflamações verificados ? A menos que você tenha tido um ataque cardíaco ou sido diagnosticado com uma condição médica séria, provavelmente nunca.


Inflamação. O que a causa ? Não é a gordura, mas os carboidratos. Sim, açúcares e carboidratos processados estão no topo da lista de perpertradores aqui, mas os grãos e amidos em geral contribuem para o problema. O LDL aumenta diretamente não pela quantidade de gordura saturada que você come, mas com os níveis crescentes de inflamação causados pelos carboidratos e gorduras trans.

Oxidação. Além dissok quase todo estudo sugere que o LDL só é uma ameaça quando oxidado. O que o oxida ? Radicais livres. Nós estamos falando de gorduras trans primariamente, aqueles monstros adicionados em incontáveis produtos alimentícios (em oposição a "comidas"). O que combate os radicais livres (porque nós todos os temos naturalmente em nossos corpos) ? Anti-oxidantes: verduras, legumes e frutas, é claro, bem como castanhas, azeite de oliva, etc. Considere também uma suplementação com multi-antioxidantes contendo os nutrientes que se sabe diminuírem a oxidação.

De volta ao bode expiatório. Colesterol substancialmente "elevado", baixo HDL ou alto LDL podem ser razão para te fazer pausar, mas não pela razão que você imagina. Os números podem te dizer que algo está errado, mas eles são um sintoma de um problema maior e não o problema em si. O perfil de colesterol pode ser impactado por outras condições tais como hipotiroidismo, diabetes não-tratada ou pré-diabetes, gravidez (surpresa!), lactação, stress, condições hepáticas, doença cardíaca (sintoma, não causa), etc. Fale com seu médico sobre o que os seus números significam no esquema maior da sua saúde. E veja se você consegue uma leitura de outros marcadores, como proteína C-reativa (indicador inflamatório) e contagem de partículas LDL pequenas.

Como manter a verdadeira saúde cardíaca



Agora que vencemos o frenesi do colesterol (porque o frenesi em si é a ameaça real aqui), vamos para a questão genuína de manter a saúde cardíaca. Manter a saúde do coração tem tudo a ver com manter a inflamação ao longe. Como dizemos aqui no MDA, isso significa uma dieta anti-inflamatória (com exercício), e a nutrição primal preenche a vaga: grandes quantidades e variedades de legumes, verduras, frutas, carnes de boa qualidade, gorduras saudáveis e proteínas.

E também, bastantes ácidos graxos ômega-3, particularmente óleo de peixe, vão ajudar a ralear o sangue e evitar coagulação, que juntamente com a aterosclerose (ligada à inflamação), é uma configuração séria para doença cardíaca e derrame. Óleo de peixe também reduz os triglicérides em geral e aumenta o "bom" HDL.

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7 comentários

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André Luis
admin
20 de fevereiro de 2014 21:15 ×

Hilton, acho que faltou o título.

No mais, excelente como sempre!

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Teimosia
admin
21 de fevereiro de 2014 07:48 ×

Hahaha. É a correria... Corrigido!

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21 de fevereiro de 2014 11:06 ×

eu desisti de discutir isso já com amigos e conhecidos..
muito bom o texto e as traduções estão cada vez melhores

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Vanisa
admin
24 de fevereiro de 2014 10:02 ×

Será que é uma boa suplementar ômega 3? Na minha cidade só vende peixe congelado, e bem ruim.
Qual seria uma marca de suplemento confiável?

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28 de fevereiro de 2014 13:40 ×

Muito obrigada por compartilhar! Excelente!

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5 de março de 2014 12:57 ×

Boa tarde Hilton. Obrigado pela tradução esclarecedora. Queria ver se você pode me ajudar em uma dúvida. Procurei muito sobre o colesterol após começar uma alimentação paleo e apesar de entender que o problema não é o colesterol, quando leio os textos e artigos, inclusive essa tradução aqui, vejo que quando se fala em colesterol alto cita-se normalmente índices de 230 e 250 e nos meus resultados após um mês de alimentação paleo o índice de colesterol deu 319. Com isso, fiquei um pouco preocupado e queria saber se existe algum número limítrofe para o colesterol, mesmo ele não sendo o vilão. Os meus resultados foram: Colesterol total: 329; Triglicerídeos 87; HDL 94; LDL 188; VLDL 47; Lípides Totais 913 e Glicose 102. Você pode me ajudar nessa dúvida? Abraço.

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Teimosia
admin
5 de março de 2014 13:21 ×

Olá, Pedro!

Eu não sou a pessoa mais indicada para responder a sua pergunta... Sugiro conversar com o Dr. José Souto, no blog dele (http://lowcarb-paleo.blogspot.com.br/). Mas te digo uma coisa: nunca vi um HDL tão alto quanto o seu em toda a minha vida... O meu, que é considerado excelente, é 74. O seu, sendo 94, me parece o paraíso :-D

Mande uma pergunta para o doutor pelo blog dele... A resposta é sempre ligeira e certeira!

Att,
Hilton

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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