Promoção da Saúde Evolucionária: Uma consideração de contra-argumentos comuns

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

Promoção de Saúde Evolucionária: Uma consideração de contra-argumentos comuns

S. Boyd Eaton, M.D.*, Loren Cordain, Ph.D.**, e Staffan Lindeberg M.D., Ph.D***.


*Departamentos de Antropologia e Radiologia, Emory University, EUA
**Departamento de Ciência do Exercício e do Esporte, Colorado State University , EUA
***Centro Primário Cuidados de Saúde, Sjobo, Suécia


Publicado online em 20/12/2001

A proposta de que a experiência ancestral do final do paleolítico (50.000±10.000 anos atrás) pode servir como um modelo para pesquisa preventiva, se justificada pela experimentação, como um paradigma para recomendações de promoção da saúde, é às vezes descartada, antes de ser criticamente avaliada, por causa de reservas baseadas em preconcepções injustificadas. Na maioria das vezes essas tendências envolvem a comparação da expectativa de vida, potenciais alterações genéticas desde a agricultura, a heterogeneidade de ambientes ancestrais, e/ou a adaptabilidade humana inata. Esse artigo examina  tais tópicos e tenta mostrar que nenhum deles justifica um descarte prematuro da abordagem evolucionária para a medicina preventiva. A promoção de saúde evolucionária pode vir a ser invalidada por causa de sua falsificação por experimentos ou porque uma teoria melhor concorde mais com os fatos conhecidos, mas esses preconceitos comumente propagados não devem evitar sua consideração consciente e avaliação investigativa.

Palavras-chave: evolução; promoção da saúde; prevenção; expectativa de vida; mudança genética; medicina evolucionária.


INTRODUÇÃO


A promoção da saúde evolucionária é baseada em três proposições:

  • Desde o aparecimento dos humanos comportamentalmente modernos, talvez 50.000 anos atrás e particularmente desde a Revolução do Neolítico de 10.000 anos atrás, a evolução cultural processou-se mais rapidamente do que a evolução genética, produzindo assim dissociações cada vez maiores entre a maneira como vivemos e o estilo de vida para o qual o nosso genoma foi originalmente selecionado;
  • Essa discordância promove doenças degenerativas crônicas que causam a maior parte da morbidez e da mortalidade nas nações ricas modernas;
  • Um modelo lógico para pesquisa da prevenção (e, possivelmente, para recomendações de saúde) é um amálgama dos estilos de vida prevalentes entre os primeiros humanos comportamentalmente modernos, antes da agricultura acelerar a divergência evolutiva genético-cultural.
Como consideração inicial, essas premissas geralmente evocam uma ou mais de várias reservas aparentemente válidas, no que diz respeito à comparação entre expectativa de vida, potenciais mudanças genéticas desde a criação da agricultura, a heterogeneidade de ambientes ancestrais, e/ou adaptabilidade humana. Tais obstáculos às vezes interferem com a avaliação objetiva das forças e fraquezas da promoção da saúde evolucionária, então parece razoável endereçar esses pontos com algum detalhe.

EXPECTATIVA DE VIDAA


A crítica mais intuitiva e mais frequentemente expressada da hipótese evolucionária envolve comparação da expectativa de vida. Em primeiro lugar, se a dieta paleolítica, atividade física, experiência reprodutiva, e assim sucessivamente, eram relamente mais saudáveis do que nas nações ricas modernas, por que as pessoas de hoje vivem tão mais tempo ? Em segundo, doenças degenerativas estão ligadas à idade, então populações que vivem mais estão mais propensas a manifestá-las; pessoas da Idade da pedra simplesmente não viviam o suficiente para que essas condições se tornassem clinicamente evidentes.

Estilo de vida e longevidade

As escolhas de um estilo de vida saudável podem melhorar o peso, composição corporal, força e resistência de um indivíduo. Elas podem minimizar o risco de derrame, infarto, diabetes e câncer. O que elas não conseguem é ter um impacto significativo na expectativa de vida média da população. Eliminar completamente os maiores fatores de risco para as 9 doenças crônicasB mais comuns aumentaria a expectativa de vida ao nascer em apenas 4 anos [1]. Enquanto desejável, um ganho de 4 anos empalidece quando comparado ao aumento de quase 60 anos que ocorreu nas nações ocidentais nos últimos 3 séculos [2].

A razão pela qual a redução de doenças crônicas tem relativamente pouco efeito na expectativ de vida média é direta: essas condições são tipicamente causas de morte em idade avançada. Se uma pessoa morre aos 80 ao invés de 75, tem muito menos influência nas medidas de longevidade média do que a mortalidade infantil. Já as circunstâncias que aumentam a probabilidade de sobrevivência a doenças infecciosas potencialmente mortais aos 2 anos de idade representam fatores capazes de substancialmente impactar a extensão média da vida da população. Se o estilo de vida paleolítico é mais saudável que o comum em nações ricas modernas, deveria ser julgado por sua habilidade de afetar parâmetros que não a expectativa de vida média.


Idade e doença crônica

Uma população com expectativa de vida de 40 anos ao nascimento vai inevitavelmente ter mortalidades por câncer, infarto, diabetes e derrame muito menores que uma população com expectativa de vida de 75. Por conta disso, comparações entre caçadores-coletores recentemente estudadosC e cidadãos de nações ocidentais ricas são inválidas. É claro que doenças relativas à idade vão causar mais mortes numa sociedade com uma proporção maior de indivíduos mais velhos.

Essa moeda tem outro lado, entretanto. Enquanto doenças crônicas degenerativas geralmente produzem mortalidade mais tarde na vida, elas começam muito cedo, geralmente na infância. Isso permite a comparação, por idade, entre membros mais jovens de sociedades tecnologicamente primitivas e outras industriais. Biomarcadores de anormalidade de desenvolvimento, tais como obesidade, pressão sanguínea elevada, aterosclerose coronariana não-obtrusiva, e resistência à insulina são comuns entre os primeiros, mas raras entre os segundos [3, 4]. Medidas de força muscular e poder aeróbico revelam discrepâncias similares [5], novamente favorecendo indivíduos cujas vidas se assemelham mais ao padrão ancestral. Cerca de 20% dos caçadores-coletores atinge os 60 anos ou mais [6, 7], mas mesmo nessa idade, indivíduos de culturas tecnologicamente primitivas aparentam ser quase completamente livres da manifestação da maioria das doenças crônicas degenerativas [8, 9] (osteo­artrite é uma exceção). Juntas, essas observações sugerem fortemente que é o estilo de vida ocidental vigente, e não a idade paenas, que promove essas  "aflições da riqueza" - a prevenção das quais é um dos grande objetivos dos esforços modernos de promoção da saúde.


Por que vivemos mais, agora ?

A expectativa de vida estimada para populações coletoras recentemente estudadas converge em torno de 40 anos [6, 7, 10, 11], e parece razoável extrapolar um valor similar para humanos pré-agricultirais, comportalmente modernos - humanos da idade da pedra. A adoção da agricultura e fixação em um território geográfico são comumente consideradas um avanço para a humanidade, mas essas novas condições parecem ter efeitos adversos sobre a longevidade, iniciando um declínio substancial para cerca de 20 anos [12]. Os perfis de mortalidade após isso permaneceram relativamente estáveis (a expectativa média de vida em Londres em 1667 foi estimada em 18 anos) [2] e parece provável que da Revolução do Neolítico até o final do século XVIII, a expectativa de vida em nações "civilizadas" raramente ou nunca excedia 25 anos. Entretanto, avanços tecnológicos  na produção de comida, manufatura, transporte, comércio, comunicações e geração de energia fizeram surgir o que os economistas chamam de crescimento econômico moderno [13, 14]. Um componente fundamental dessa transformação foi o aumento contínuo na renda per capita, uma medida que reflete a produtividade humana e determina o poder aquisitivo médio. Na Grã-Bretanha, a renda per capita dobrou entre 1780 e 860, e então multiplicou-se por 6 entre 1860 e 1990 [15]. Abrigo, transporte, vestuário e comida tornaram-se progressivamente menos caros em termos do tempo e energia necessários para obtê-los.

No nível mais básico, o aumento na produtividade humana é igual à aquisição mais eficiente de energia proveniente de alimento: ganha-se mais calorias para um dado esforço. Essa eficiência melhorada produz mais energia disponível para requerimentos corporais que não o simples trabalho físico.

Energia proveniente de alimentos = Gasto de energia com atividade física
+
Metabolismo em repouso
Ações dinâmicas específicas
Resistência a patógenos
Crescimento
Reprodução
Armazenamento de energia

Desses, o mais importante face à expectativa de vida, foi a resistência a patógenos [16, 17]. A Revolução Industrial melhorou tão significativamente a produtivade por hora de esforço humano, que a saúde humana melhorou ainda que a população tenha crescido muito, desafiando assim as expectativas Malthusianas. Isso foi um desenvolvimento sem precedentes.

Dez mil anos antes, a comparavelmente significativa Revolução Agricultural aumentou a produtividade por unidade de área, tornando disponível mais energia proveniente de comida de forma que o crescimento da população se acelerou. Entretanto, a produtividade por hora de trabalho pode na verdade ter diminuído: por volta dessa época, a altura média diminuiu enquanto os marcadores esqueletais de infecção e estresse nutricional tornaram-se mais comuns [18, 19]. O crescimento econômico moderno reverteu os efeitos negativos da era agricultural sobre o balanço individual de energia, promovendo assim fenômenos biológicos, tais como maior estatura na idade adulta, puberdade em idades mais jovens, e aumento do armazenamento de energia (como tecido adiposo), que caracterizaram os últimos 200 anos. O novo balanço de energia também estendeu a expectativa de vida humana, outra das características dos biofenômenos dos últimos dois séculos. Maior disponibilidade de energia aumentou o potencial para reparar os efeitos de traumas, atender os requerimentos energéticos de conceber uma criança, e combater o ataque de micróbios nocivos. Como as doenças infecciosas tinham sido a principal causa de mortalidade, o último ponto foi de especial importância para a longevidade [16, 17].

A expectativa de vida foi afetada negativamente pelos deslocamentos populacionais das áreas rurais para as urbanas, nas quais as doenças transmissíveis eram prevalentes. Aumentos também foram observados mais cedo entre as classes mais altas, que receberam uma proporção maior dos benefícios iniciais da Revolução Industrial [13]. Entretanto, entre 1700 e 1900, a expectativa de vida britânica aumentou 34 anos - de 18 para 52 [2, 16]. Entre 1890 e 1990 a renda real (ajustada pela inflação) dos 20% lares mais pobres aumentou 19 vezes, de maneira que os efeitos da industrialização sobre a saúde tornaram-se mais equitativamente distribuídos [13], com o resultado da expectativa de vida média agora exceder 75 anos em muitas nações ocidentais.

Apesar de obviamente terem feito uma contribuição insubstituível à saúde individual e à qualidade de vida, há um consenso surpreendente de "que os tratamentos médicos terapêuticos tiveram pouco impacto na redução da mortalidade" [20]. Por outro lado, concorda-se cada vez mais que melhorias na saúde pública tais como melhor saneamento (água pura, remoção adequada de dejetos), comida mais segura, sistemas de quarentena efetivos e imunizações exerceram uma influência crítica na longevidade. Se o maior impacto foi das considerações econômicas ou das medidas de saúde pública, é alvo de disputa [16, 20, 21], mas seus efeitos foram claramente complementares, especialmente desde o meio do século XIX. É a combinação desses desenvolvimentos sociais, e não escolhas individuais de estilo de vida, que levaram a uma expectativa de vida duas vezes maior que em qualquer sociedade humana anterior.


MUDANÇAS GENÉTICAS DESDE A AGRICULTURA


Durante os últimos 10.000 anos houve aproximadamente 400 a 500 gerações humanas. Dada pressão seletiva suficiente, esse número de gerações tem ampla oportunidade para evolução genética muito significativa. Por exemplo, os mamutes de Wrangel Island, isolados da Sibéria  pelo aumento do nível do mar no final da última Era Glacial, tornaram-se anões (cerca de 1/3 do tamanho de seus ancestrais) em um período de 5.000 a 7.000 anos [22]. À luz disso e de outras instâncias documentadas de evolução rápida de mamíferos, importantes mudanças no banco genético humano após a Idade da Pedra não podem ser descartadas. Talvez elas tenham nos adaptado para as condições de vida nas nações ocidentais ricas.

Entretanto, do ponto de vista da teoria evolucionária, uma população crescente, aumentando as viagens inter-regionais e inovações culturais capazes de diminuir a variabilidade ambiental, deveria reduzir a probabilidade de novidades genéticas se estabelecerem [23]. Isto é, eles deveriam retardar a taxa de evolução genética. Geneticistas respeitados [24], paleoantropólogos [25], biólogos [26], e teóricos da evolução [27] concordam que, geneticamente, humanos modernos diferem pouco dos nossos ancestrais da Idade da Pedra. Essa controvérsia pode ser testada comparando-se a composição genética de populações existentes. Se a agricultura e a "civilização" alteraram significativamente o genoma humano, grupos como os San do Kalahari, os Inuit do Ártico, os Aborígines australianos, cujos ancestrais eram caçadores-coletores até séculos recentes, deveriam diferir, geneticamente, de alguma maneira sistemática e identificável, dos  mediterrâneos, chineses e nova-guineanos, cujos ancestrais adotaram a agricultura milênios atrás. Não há evidência para tal distinção [28]. Enquanto  há variação genética entre diferentes populações humanas, algumas das quais afetam suscetibilidade a doenças, pouco dessa variação pode ser atribuída aos efeitos de desenvolvimentos culturais durante os últimos dez milênios. (Tolerância à lactose e ao glúten, bem como diversas anemias hemolíticas, são possíveis exceções). Houve muito tempo para mudanças importantes no banco genético humano desde a Revolução do Neolítico, mas dados genéticos comparativos proveem evidência constrangedora contra a controvérsia de que a longa exposição às circunstâncias agriculturais e industriais nos distanciou, geneticamente, dos nossos ancestrais da Idade da Pedra.


O AMBIENTE DA ADAPTABILIDADE EVOLUCIONÁRIA


Esse termo inapropriado designa que o segmento de tempo evolucionário durante o qual a pressão seletiva operando sobre os ambientes físico e psicológico dos nossos ancestris levaram ao aparecimento de caracterísiticas humanas modernas. É claro que as circunstâncias do passado variaram com o período e a localização geográfica, e essa inconstância é defendida por alguns para invalidar qualquer "prescrição paleolítica". Se não havia um padrão de vida ancestral universal, como a experiência do passado pode prover um modelo para recomendações de saúde no presente ?

A resposta é que as diferenças entre ambientes ancestrais ao longo do tempo e espaço eram mínimas, comparadas com suas similaridades essenciais, especialmente quando contrastadas com a experiência humana no rico presente. Se os homens da Idade da Pedra viviam no ártico ou nos trópicos, exercício físico vigoroso era essencial; para coletores vivendo 500.000 ou 50.000 anos atrás a comida era derivada de vegetação naturalmente ocorrente, e animais selvagens. A idade da primeira gravidez, padrões de amamentação, e intervalos entre nascimentos variavam muito pouco entre caçadores-coletores pré-históricos, mas em geral, diferiam marcadamente das experiências reprodutivas da maioria das mulheres em nações contemporâneas ricas [29]. Se a organização social de coletores recentemente estudados puder ser extrapolada para o passado - o que é provavelmente válido ao menos até a aparição dos humanos comportamentalmente modernos - humanos paleolíticos nômades viviam em pequenos grupos cujos membros conheciam um ao outro intimamente, não é agregações megapolitanas de estranhos e conhecidos casuais. Politicamente eles eram igualitários, não hierárquicos [30], e economicamente deve ter havido alocação de recursos mais equitativa do que em qualquer época subsequente à aparição de líderes e chefes durante o Neolítico [30].

Os modos de vida ancestrais durante a adaptabilidade evolucionária eram sim, heterogêneos, mas suas essências eram basicamente similares e diferiam agudamente das do presente. Essas característicias centrais podem ser utilizadas para criar uma base legítima e defensável para pesquisa significativa e potencialmente, para recomendações de saúde.


ADAPTABILIDADE HUMANA


Humanos estão entre as mais adaptáveis de todas as espécies de mamíferos; de fato, alguns teóricos especulam que um impulso importante na nossa trajetória evolucionária foi no sentido de maximizar a adaptabilidade [32]. Além disso, nossa versatilidade puramente biológica é estendida pela cultura, pela capacidade do humano comportamentalmente moderno  de manipular o ambiente através da tecnologia. Dada essa faculdade única para ajustar-se a diferentes condições, não é possível, ou mesmo provável, que estamos aceitavelmente equipados para a vida nas condições ocidentais ricas ? Afinal de contas, há aproximadamente 500 pessoas vivas para cada indivíduo que viveu no final da Idade da Pedra; uma estimativa de 10 a 15 milhões 10.000 anos atrás, versus 6 bilhões no presente. Isso não indica o quão bem nos adaptamos a circunstâncias mutáveis ?

Não há dúvida que a adaptabilidade tem sido um fator importante na expansão demográfica humana subsequente à agricultura. Alguns podem perguntar se o crescimento explosivo da nossa espécie foi benéfico para o bioma mundial em geral, ou mesmo se ela exerceu uma influência positiva nas vidas individuais dos humanos medianos. Entretanto, nossa capacidade para adaptação física e inovação cultural permitiu claramente aos humanos sobreviver e multiplicar-se em muitas configurações ambientais diferentes.

Entretanto, isso não é dizer que nossa biologia opera otimamente em todos esses ambientes. Como regra, organismos biológicos são mais saudáveis quando suas circunstâncias de vida mais se aproximam das condições para as quais seus genes foram selecionados. Em muitos casos nossa capacidade intrínseca de adaptação nos permite acomodar desvios com pouco efeito imediato na saúde. Mas em última análise, além de limites atualmente desconhecido, a adaptação de um organismo individual pode sacrificar a saúde futura pela sobrevivência no curto prazo. Condições toleráveis ou mesmo benéficas no início da vida podem levar, eventualmente, a doenças crônicas degenerativas.

Circunstâncias sub-ótimas levam períodos de tempo variados para induzir efeitos nocivos. Falta de oxigênio é letal em minutos, escorbuto desenvolve-se após de meses de ingesta inadequada de vitamina C, e cálcio dietário insuficiente comumente leva décadas para produzir osteoporose clínica. Desvios do nosso estilo de vida ancestral - na nutrição, exercício, reprodução, etc - pode produzir efeitos danosos durante o início da vida, mas muitos indivíduos aparentam ser saudáveis até o meio  da idade adulta, e mesmo depois. Entretanto, se os modos de vida pré-agriculturais são aqueles para os quais os humanos permanecem geneticamente programados, podemos esperar que, apesar da nossa adaptabilidade, a maioria de nós vai ter que eventualmente pagar o pato. A hipótese evolucionária propõe que doenças crônicas degenerativas são o preço.

CONCLUSÃO


Esses contra-argumentos são importantes porque o apelo intuitivo das questões que eles abordam às vezes torna tendenciosa a consideração da natureza e possível significância da promoção da saúde evolucionária. Proponentes dessa disciplina emergente não necessariamente opõem-se ao crescimento econômico moderno e certamente não são contra as realizações da medicina e da saúde pública. Seu argumento é que, na área das escolhas individuais de estilo de vida relativas à prevenção de doenças crônicas degenerativas, os aspectos pertinentes da experiência paleolítica [33] deveriam ser considerados um paradigma candidato atrativo, potencialmente frutífero e que merece discussão e pesquisas avaliativas. Nenhuma teoria pode se tornar um paradigma até que a investigação e a hipótese consigam um acordo, mas qualquer rejeição da promoção da saúde evolucionária deveria ser baseada em sua falsificação por experimento ou porque outra teoria se ajusta melhor aos fatos conhecidos - não por causa de preconcepções injustificadas sobre evolução genética desde a agricultura, adaptabilidade humana ou heterogeneidade dos ambientes paleolíticos. E certamente não porque vivemos mais do viviam as pessoas da Idade da Pedra. A longevidade contemporânea reflete a estrutura econômica em conjunto com medidas de saúde pública. Ela não é a confirmação das nossas escolhas de estilo de vida individuais e nem um argumento válido contra a promoção da saúde evolucionária.

NOTAS


A - Apesar de tecnicamente impreciso, esse artigo usa "expectativa de vida", "longevidade" e expressões similares de maneira intercambiável ara indicar o provável número de anos de vida esperados, no nascimento, para membros de toda a populaçaõ em consideração.

B - Derrame, doença coronariana, diabetes, doença pulmonar obtrusiva, câncer de pulmão, câncer de mama, câncer cervical, câncer colo-retal e doença hepática crônica/cirrose.

C - Imperfeito, mas são os melhores substitutos para humanos pré-históricos.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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