quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Matando o mito: não existe "colesterol ruim"

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

Talvez um dos maiores mitos da saúde propagados pela cultura ocidental e certamente nos EUA, é a correlação entre colesterol elevado e doença cardiovascular (DCV). Infelizmente, apesar de dúzias de estudos, não se pôde provar que o colesterol possa realmente causar DCV. Ao contrário, colesterol é vital à nossa sobrevivência, e tentar abaixá-lo artificialmente pode ter efeitos danosos, particularmente quando envelhecemos.

Colesterol parece ser uma daquelas coisas que põe medo no coração de muitos, literalmente. Nós nos tornamos obcecados em comer comidas com pouco colesterol e gordura. Pergunte a qualquer um, e ele pode te dizer seus indicadores de colesterol.

O que é certo é que o "pouco conhecimento" que a mídia geralmente fornece significa que muitas pessoas assumem que colesterol é simplesmente uma coisa "ruim". Em contrapartida, um bom número de nós pode ter ouvido os termos "colesterol bom" e "colesterol ruim" serem ditos, sem saber direito o que isso realmente significa. Uma aposta razoavelmente segura: se você pedir a uma pessoa qualquer na rua a sua resposta instintiva, se perguntada sobre colesterol, ela provavelmente dirá simplesmente que precisa "reduzi-lo".

A ciência ruim oferecida pelos marketeiros para um público geralmente leigo tem levou muitas pessoas a acreditar que devemos substituir certas comidas por produtos especialmente desenvolvidos para "reduzir o colesterol". Naturalmente, isso custa e requer daqueles que podem arcar, que paguem quatrou ou cinco vezes mais que o produto "comum" poderia custar. Mas essa necessidade aparente de lutar para abaixar nosso colesterol é justificada ? E afinal, é saudável ?

Qualquer um que tenha recebido o diagnóstico oficial de "colesterol alto" em sua corrente sanguínea pode ter embarcado em um programa de intervenção medicinal. É bastante provável tenha se juntado às legiões de tomadores de pílulas a longo prazo, que fazem fila para encher os bolsos dos gigantes farmacêuticos orientados ao lucro.

Mas tomemos um momento agora, para rever alguns dos fatos e falácias sobre essa substância tão mal-falada: colesterol.

Colesterol é necessário para produzir hormônios. Sem ele, não produziríamos estrogênio, progesterona ou testosterona. É vital para o funcionamento das sinapses nervosas e provê integridade estrutural para nossas membranas celulares. Colesterol é usado pela pela para evitar a evaporação da água e para deixar nossa pele impermeável. Vitamina D é sintetizada a partir do colesterol. E a bile, usada para digerir gorduras, consiste basicamente de colesterol. O fígado produz 90% do colesterol em nossos corpos; apenas 10% vem da dieta. Se comermos muito colesterol, o fícado diminui a produção do mesmo.

Colesterol é um lipídio que ocorre naturalmente. Isso significa que é um tipo de gordura ou óleo e que é de fato essencial para criar e sustentar as membranas das células de todos os tecidos corporais. Considerando apenas esse fato, precisamos de colesterol para sobreviver! A maior parte do colesterol encontrado nos nossos corpos foi feita naturalmente pelas nossas células. Entretanto, há uma contribuição adicional que ganhamos de fontes nutricionais - as comidas que consumimos. Em uma dieta típica provendo cerca de 400mg de colesterol por dia de fontes alimentares, entre metade de 2/3 dessa quantidade é absorvida pelos processos de digestão. O corpo vai normalmente secretar 1g de colesterol por dia sob forma de bile através dos dutos biliares, e aproximadamente 3/5 são re-absorvidos.

Onde nossos tecidos ou órgãos são um complexo particularmente denso de células, que tem membranas celulares muito próximas umas das outras, vai haver naturalmente níveis mais altos de colesterol. Os órgãos-chave que precisam de, e contém essas quantidades mais altas de colesterol, incluem o fígado, o cérebro e a medula - nenhum dos quais funcionaria bem se reduzíssemos o colesterol demais!

Na realidade, o colesterol desempenha um papel essencial no desenvolvimento e manutenção de paredes celulares saudáveis. Ele é também um fator crítico na síntese de hormônios esteróides, que são fator-chave no nosso desenvolvimento físico natural.

Sendo um lipídio, o colesterol é solúvel em gordura, mas não é solúvel em sangue. Entretanto, ele precisa ser transportado pelo corpo para os lugares onde pode ser utilizado. Esse é o motivo pelo qual, para poder ser movido, ele precisa ser "associado" com certas lipoproteínas que apresentam uma capa de proteínas solúveis em água (e assim, "transportáveis pelo sangue"). Há dois tipos principais de lipoproteínas que transportam o colesterol pelo corpo: variantes de alta e baixa densidade. A função celular essencial do colesterol requer que quantidades suficientes sejam manufaturadas por sub-sistemas especializados (ou organelas) dentro dos corpos celulares, chamados "retículos endoplasmáticos". Alternativamente, o colesterol que precisamos deve ser derivado da nossa dieta. Durante o processo de "digestão e assimilação" dos alimentos, é a lipoproteína de baixa densidade (LDL) que leva o colesterol ingerido do fígado para várias partes do corpo.

Quando há colesterol suficiente para as necessidades cleulares, o outro fator desse fantástico mecanismo de transporte logístico - lipoproteina de alta densidade (HDL) - pode levar o colesterol de volta para o fígado, a partir de qualquer ponto onde o excesso desnecessário possa ser processado para excreção.

A ciência ruim dos fabricantes da chamada "comida funcional" quer nos fazer acreditar que há coisas tais como "colesterol ruim" e "colesterol bom". Isso é, de fato, totalmente falso. O colesterol por si, sendo transportado por LDL ou HDL, é exatamente o mesmo. Colesterol é simplesmente um ingrediente necessário que precisa ser regularmente distribuído pelo corpo para a saúde, desenvolvimento, manutenção e funcionamento das nossas células. A diferença está nos "transportadores" (as lipoproteínas HDL e LDL), e ambos os tipos são essenciais para a logística de entrega do corpo humano funcionar efetivamente.

Problemas podem ocorrer, entretanto, quando as partículas de LDL são pequenas e a sua capacidade de carga ultrapassa o potencial do HDL disponível. Isso pode levar a mais colesterol sendo "entregue" pelo corpo, com poucos recursos que retornem o excesso para o fígado.

LDL pode variar em sua estrutura, e ocorrer em partículas de tamanho variado. São as menores partículas de LDL que podem facilmente ficar "presas" nas artérias pelos proteoglicanos - que são uma espécie de "enchimento" encontrado entre as células de todos os animais, humanos incluídos. Isso então pode fazer com que o colesterol que o LDL carrega, contribua com a formação de depósitos gordurosos chamados "placas" (um processo conhecido como "aterogênese"). À medida que esses depósitos são construídos, eles restringem a largura e flexibilidade das artérias. Isso causa um aumento na pressão sanguínea e pode levar a outros problemas cardiovasculares tais como infartos e derrames.

O LDL por si é consequentemente chamado de "colesterol ruim", mas você agora pode apreciar o fato de que isso é simplesmente incorreto. Na verdade, LDL, HDL e colesterol são todos essenciais à nossa daúde. Entretanto, parece que para os humanos tornou-se comum ter uma preponderância de pequenas partículas "insalubres" de LDL, que podem se tornar um precursor para doença arterial e cardíaca devido aos mecanismos descritos. É aparentemente mais saudável ter um pequeno número de grandes partículas de LDL carregando a mesma quantidade de colesterol, do que uma grande quantidade de pequenas partículas de LDL - mas por alguma razão isso é menos comum. Essa é uma área interessante que precisa de mais pesquisa.

Quando o LDL fica retido pelas glicol-proteínas nas artérias, ele fica sujeito a ser oxidado pelos radicais livres. É aí que o processo se torna ameaçador à saúde. Já foi sugerido que aumentar a quantidade de anti-oxidantes na nossa dieta possa "limpar" os radicais livres, e consequentemente reduzir a oxidação danosa. Apesar da idéia de consumir comidas ricas em anti-oxidantes (ou mesmo usar suplementos) ser amplamente promovida, a evidência científica da sua eficácia ainda precisa ser inteiramente estabelecida.

Outro ponto a considerar é a ocorrência de substâncias chamadas "lipídios de densidade muito baixa", ou VLDL, também conhecidos como triglicerídeos. VLDL é convertido em LDL na corrente sanguínea, e contribui para elevar os níveis de LDL e de potenciais problemas de saúde subsequentes, ligados ao colesterol. Esse é o motivo pelo qual os triglicerídeos são geralmente  medidos quando um teste de colesterol do seu sangue é feito.

A produção de VLDL no fígado - a partir da combinação de colesterol e apolipoproteína - é exacerbada pela ingesta de frutose. Frutose é o tipo de açúcar encontrado em muitas frutas, também é componente da sacarose e do amplamente utilizado xarope de milho de alta frutose (HFCS). Isso implica que qualquer um cujos níveis de LDL ou triglicerídeos estão indevidamente altos deveria cortar aquelas comidas adoçadas, e mesmo as frutas mais doces, cheias de frutose; não simplesmente reduzir sua ingesta de comidas gordurosas!

A vitamina B3, também conhecida como niacina, por outro lado, de fato abaixa o volume de VLDL e por conseguinte, do LDL. Além disso, niacina ajuda a estimular a produção de HDL, a lipoproteína que leva o excesso de colesterol de volta para o fígado para excreção. Entretanto, ao ficar com as melhores tradições de consumir "todas as coisas em moderação", o limite superior recomendado de ingesta de niacina fica em 35mg, dado que ela pode ter efeitos tóxicos em grandes volumes. Ainda assim, profissionais médicos chegam a prescrever doses de niacina tão altas quanto 2g, até três vezes ao dia, para tratamento daqueles com níveis perigosamente altos de colesterol sanguíneo. Naturalmente você nunca deve se medicar com altas doses de niacina sem ter aconselhamento médico apropriado.

Niacina na dieta é tipicamente derivada de comidas com muita proteína, incluindo fígado e outras carnes, bem como quantidades significativas podem ser encontradas em certas oleaginosas e grãos integrais.

Entretanto, uma das drogas farmacêuticas da moda recente, introduzida para tratar a aparentemente crescente incidência de colesterol alto, particularmente no ocidente, são as estatinas. Provavelmente você tem um amigo ou parete tomando essas drogas inúteis (Lipitor, Mevecor, Crestor, etc) para diminuir o colesterol. Estatinas são o medicamento número 1 em vendas no mundo. Elas trabalham interferindo com a função hepática e reduzindo a produção de LDL. Mas estatinas são uma inovação questionável em pelo menos um par de aspectos. Primeiro, elas não estão livres de efeitos colaterias: podem, por exemplo, levar à perda de músculos, que por sua vez pode sobrecarregar os rins e causar falha renal aguda.

Estatinas também parecem reduzir os níveis naturais de Co-enzima Q10, agente de proteção celular similar a uma vitamina. Essa benzoquinona tem um papel importante na liberação de energia celular, particularmente em áreas muito exigidas tais como pulmões, fígado e coração. CoQ10 (como é chamada às vezes) também protege o cérebro contra degeneração neurológica. Mas talvez mais interessante, com respeito ao colesterol, a CoQ10 age como anti-oxidante, particularmente ativa na proteção do sistema contra a oxidação do LDL e os problemas potenciais associados com isso - conforme descrito acima. Então enquanto as estatinas reduzem o LDL por si, elas também pode causar mais problemas a longo prazo. Naturalmente, como com muitas drogas modernas, elas geralmente precisam ser tomadas por longos prazos por alguém a quem tenham sido prescritas.

O que é particularmente preocupante sobre as estatinas é, talvez, o fato de que elas podem ser vistas como um "reparo rápido" para um LDL insalubremente alto, e consequentemente para níveis de colesterol no corpo. Elas precisam ser tomadas por um longo período - o que as tornam muito lucrativas para fabricantes de drogas. Mas elas também podem ser prescritas sem a mensagem mais abrangente de que para endereçar qualquer problema de colesterol "naturalmente", o paciente precisa mudar seu estilo de vida e dieta. Estatinas podem ser vistas como uma opção fácil, mas podem simplesmente ser o início de um processo no qual o custo negativo sobre a saúde é simplesmente postergado ao invés de ativamente resolvido! Isso para não falar quem em casos extremos de colesterol alto, ou hipercolesterolemia, pode não haver um papel útil para terapia com estatinas quando estratégias naturais falham ou não se provam efetivas ou factíveis.

Na verdade, e em resumo, colesterol é uma substância importante e essencial que precisamos para saúde em nível celular. É mais provável que qualquer desbalanço no nosso sistema de transporte de colesterol seja devido a hábitos de alimentação e exercícios ruins, no longo prazo. Garantir que consumimos algumas comidas anti-oxidantes extra, junto com comidas ricas em niacina, pode muito bem ser de benefício. Mas é talvez mais importante reconhecer que níveis deliberados e contínuos de atividade física e o consumo de uma dieta saudável são uma solução melhor que drogas do tipo "resolve rápido", se algum dia formos diagnosticados com níveis de colesterol e triglicerídeos que possam preocupar.

Dr. Ron Rosedale e os fatos sobre colesterol (em inglês)

Dr. Ron Rosedale conversa sobre mitos comuns sobre o colesterol, e expõe os enganos e desentendimentos que a maioria das pessoas aprendeu (entrevista com o Dr. Mercola)

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